| O método
de vida era, portanto, a luta diária para alcançar
a perfeição, mas sem esconder os defeitos
que cada um deles possuía. A franqueza recíproca
permitia que os obreiros dividissem suas dificuldades
sem julgamentos, e Francisco os ouvia com amor, sabedor
de que o mal ainda habitava no coração
de seus servos, mas que o trato para com as fraquezas
humanas deveria ser realizado às claras.
Conforme trecho já transcrito, referente à
página 204 da obra, Tomás de Celano descreve
que o Santo não sabia adular a ninguém,
nem incentivava a culpa no coração de
seus fiéis. Seu objetivo era o trabalho árduo,
com o descobrimento das fraquezas que habitavam no Cristão.
Buscava ele mesmo se penitenciar através da caridade,
evitando a promoção pessoal, o orgulho
e a vaidade, mas não incentivando entre os seus
servos a vergonha de expressarem suas dificuldades íntimas.
Francisco sabia que deveria combater o orgulho no
coração de seus seguidores, pois sentia
que o "eu" era o maior empecilho para o aprimoramento
do ser, e escreve ele mesmo:
"Eis o meio de reconhecer
se o servo de Deus tem o Espírito do Senhor.
Se Deus por meio dele operar alguma boa obra, e ele
não o atribuir a si, pois o seu próprio
eu é sempre inimigo de todo bem, mas antes considerar
como ele próprio é insignificante e se
julgar menor que todos os outros homens". (São
Francisco de Assis, Parte I, Admoestações,
Item 12, p. 65)
E as exortações neste sentido não
param por aí. Ao comentar trecho do Evangelho
de Mateus, Francisco ainda chama a atenção
de seus seguidores:
"Bem-aventurados os pobres
de espírito, porque deles é o reino dos
céus" (Mt 5,3). "Muitos há que
são zelosos na oração e no culto
divino, e praticam muito a abstinência e a mortificação
corporal. Mas por causa de uma única palavra
que lhes pareça ferir o próprio eu ou
de alguma coisa que se lhes tire, logo se mostram escandalizados
e perturbados. Estes não são pobres de
espírito, pois quem é deveras pobre de
espírito odeia a si mesmo (cf. Lc 14,26; Jo 12,25)
e ama aos que lhe batem na face (Mt 5,39)". (São
Francisco de Assis, Parte I, Admoestações,
Item 15, p. 66)
Por várias vezes se serviu das passagens evangélicas
para passar seus ensinamentos. Acreditava que o verdadeiro
cristão deveria perseguir diariamente o cumprimento
dos preceitos cristãos, e impunha primeiro a
si esta obrigação.
Provavelmente por volta do ano 1220, a Ordem fundada
por Francisco já havia ganhado destaque, e vinha
crescendo constantemente. Ao passo que seus seguidores
construíam trabalho sólido também
apareciam as dificuldades do caminho, e vários
servos desviavam-se da observância da Regra escrita
pelo apóstolo.
Este cenário levou Francisco a escrever a "Carta
a toda a Ordem dos Frades Menores", onde se encontravam
advertências diversas. Os chamamentos não
eram direcionados apenas aos Frades. Francisco as impunha
primeiramente a si mesmo, e sem temor de revelar suas
fraquezas escreveu:
"(...) Tenho pecado em muitos
pontos por grave culpa minha, especialmente porque não
tenho observado a Regra que prometi ao Senhor observar,
nem rezado o ofício conforme o prescreve a Regra,
seja por negligência, seja por causa de minha
enfermidade ou porque sou um homem ignorante e pouco
ilustrado.
Rogo, pois, insistentemente ao
ministro geral Frei Helias, meu senhor, que faça
observar a Regra por todos inviolavelmente, e que os
clérigos digam o ofício divino com devoção
diante de Deus, atendendo não tanto à
harmonia da voz, mas antes à sua concordância
com o espírito, de modo que a voz se una ao espírito,
e o espírito se harmonize com Deus. Assim eles
podem agradar a Deus pela pureza do coração
e não lisonjear os ouvidos do povo pela delícia
da voz". (São Francisco de Assis, Parte
I, Carta a Toda a Ordem, p. 96)
Neste trecho fica claro que a intenção
de São Francisco era primeiramente observar a
Regra como forma de atender a Deus. Não pretendia
lisonjear quem quer que fosse através da palestra
encantadora, mas exortar os servos de Deus a viverem
retamente a obra do Cristo. Não chamava a atenção
de seus servidores sem antes observar em si mesmo as
raízes da iniqüidade, e as combatia ferrenhamente,
crente que não poderia nunca descuidar destes
preceitos.
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