| O exemplo
de vida franciscana contagiou falanges de seguidores,
e estes se compraziam em seguir os passos de seu mestre.
A ordem conseguiu tarefa bem difícil, fundar
na Terra uma irmandade verdadeiramente fraternal, baseada
nos preceitos Cristãos, obra que só poderia
ser liderada por Francisco de Assis.
4. O CRISTÃO
Convencido de que possuía a missão de
arrebanhar almas para o Cristo, Francisco impõe
para si e para aqueles que o seguiam uma "Regra
de Vida". Escreveu o documento baseando-se principalmente
em passagens do Evangelho, desejando seguir o Nazareno
em todos os aspectos, estabeleceu uma conduta religiosa
que perseguiu até as últimas conseqüências.
Por causa de sua disposição de sustentar
estes preceitos foi perseguido, açoitado, humilhado,
preso, passou fome e todo o tipo de privações,
mas nada disso teve o poder de retirá-lo do caminho
que tinha eleito para seguir.
Desejoso de firmar o compromisso através da
"Regra de Vida", Francisco leva seu código
de conduta até o Papa da época, Inocêncio
III. Este tentou convencer Francisco a adotar a vida
monástica, vivendo recluso na adoração
de Deus. Mas tal objetivo não era o do apóstolo
do Cristo. Não lhe satisfazia estar trancafiado
em um monastério rezando, desejava se doar em
espírito para todas as almas do mundo. O Papa
abençoa o código e se curva aos nobres
princípios esposados por Francisco.
Em seus escritos encontramos as "Admoestações",
conjunto de observações franciscanas às
passagens do Evangelho que demonstra qual foi o caminho
eleito pelo inspirado de Assis. As exortações
muitas vezes são duras, chamando a atenção
do fiel aos seus pecados e à necessidade de corrigi-los.
Em um destes trechos, Francisco escreve:
"De que, então, podes
gloriar-te? Mesmo que fosses tão arguto e sábio
a ponto de possuíres toda a ciência, saberes
interpretar toda espécie de línguas e
perscrutares engenhosamente as coisas celestiais, nunca
deverias gabar-te de tudo isso, porquanto um só
demônio conhece mais das coisas celestiais
e ainda agora conhece mais as da terra que todos os
homens juntos, a não ser que alguém tenha
recebido do Senhor um conhecimento especial da mais
alta sabedoria. Do mesmo modo, se fosses mais belo e
mais rico que todos, e até operasses maravilhas
e afugentasses os demônios, tudo isso seria estranho
a ti nem te pertenceria nem disto te poderias desvanecer.
Mas numa só coisa podemos "gloriar-nos:
de nossas fraquezas" (2Cor 12,5), e carregando
dia a dia a santa cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo".
(São Francisco de Assis, Parte I, Admoestações,
Item 5, p. 63) (grifos nossos).
As "Admoestações" foram escritas
como regra de conduta e de vida. Seu conteúdo
demonstra qual era a forma franciscana de vida Cristã.
Em uma primeira leitura pode parecer estranho que Francisco
de Assis tenha feito estas observações
para si mesmo e para seus seguidores, mas as advertências
não são despropositadas. Desde o início
de sua conversão o conflito entre as paixões
mundanas e o chamado para as coisas do céu instalara-se
no coração do apóstolo. Viveu duros
momentos de conflito interior, e confessava sua dificuldade
inicial de cuidar dos leprosos e de atender aos pobres.
Ora condoia-se do sofrimento do próximo, ora
experimentava repulsa pela dor humana. Antevendo sua
dificuldade natural de expressar o bem, impôs
a si um método de vida severo e sincero, com
o objetivo de alcançar o bem, mas sem desprezar
as mazelas da alma.
Percebendo que o caminho da salvação
passava necessariamente pelo cuidado com as nossas fraquezas,
Francisco as eleva a um grau de importância fundamental,
pois sabia que não iria conseguir realizar o
bem se não cuidasse atenciosamente de suas paixões.
Quando o apóstolo se reunia com seus seguidores
o objetivo também não era diferente:
"(...) Reunidos, manifestaram
sua grande alegria por rever o piedoso pastor e se admiraram
de terem tido todos o mesmo desejo ao mesmo tempo. Contaram
depois as coisas boas que o misericordioso Senhor lhes
tinha feito e pediram correção e castigo
ao santo pai pelas negligências e ingratidões
que pudessem ter cometido, cumprindo-os diligentemente.
Era isso que costumavam fazer
todas as vezes que chegavam a ele, e não lhe
ocultavam o menor pensamento e até os impulsos
das paixões. Depois de terem cumprido tudo que
lhes fora ordenado, ainda se achavam servos inúteis.
Essa primeira escola de São Francisco tinha tal
pureza de espírito que, embora soubessem fazer
coisas úteis, santas e justas, não sabiam
absolutamente vangloriar-se por causa disso". (São
Francisco de Assis, Parte II, Vida I, Cap. 12, p.199)
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