| Quando a visão
termina Frei Pacífico encontra-se transfigurado.
Ele se reconhecera em um daqueles tronos e vira São
Francisco ocupando a posição maioral naquela
hierarquia. O frei, sentindo-se perturbado com o acontecimento,
pergunta ao pai Francisco o que ele achava, e este responde:
"Parece-me que sou o maior pecador que existe no
mundo". Ato contínuo, Frei Pacífico
ouve a seguinte voz :
"Nisto reconhecerás
que tua visão foi verdadeira, pois assim como
Lúcifer por seu orgulho foi alijado daquele trono,
Francisco por sua humildade merecerá ser elevado
e sentado nele". (São Francisco de Assis,
Parte III, O Espelho da Perfeição, Cap.
60, p. 908)
A voz misteriosa explica ao frei qual era a missão
do inspirado de Assis, e através dessa passagem
pode-se depreender a extensão do processo. Os
tronos que aparecem na imagem são as posições
que os anjos ocupavam no Sistema, termo que o professor
Pietro Ubaldi usou para designar o estado em que os
espíritos viviam antes de mergulharem na matéria
e caírem no Anti-Sistema.
Frei Pacífico se vê em um destes tronos
e reconhece que o mais glorioso deles pertenceu ao anjo
Lúcifer. A imagem indica que Francisco ocupara
aquele trono mais alto, e após a queda, por conseqüência,
havia se tornado o maior dos pecadores. Mas o Santo
já caminhava para coroar sua redenção,
e a voz afirma que Francisco haveria de se sentar no
trono novamente. Este é o fechamento do processo
de evolução de pai Francisco. O episódio
ocorrido no Monte Alverne foi a concretização
do que a visão mostrara, o anjo decaído
que completa sua caminhada evolutiva e agora pode novamente
ascender ao Sistema, voltar ao seio da lei de Deus e
entrar em comunhão definitiva com o Pai.
Mas a visão ainda aponta para uma outra conclusão
importante. Conforme nos demonstra Ubaldi, o Sistema
era formado por uma hierarquia perfeita. Na obra "O
Sistema" encontramos as seguintes explicações:
"O egocentrismo é,
por natureza sua, uma afirmação, e como
tal tende a afirmar-se cada vez mais, se o seu impulso
não for equilibrado por um contra-impulso, exercitado
pela disciplina que o ser se impõe, em respeito
à ordem e em obediência à Lei. Mas,
se esse egocentrismo egoísta pode ter aparecido
como uma vantajosa expansão do eu, ele representava
o princípio subversivo e anti-orgânico,
que reaparece no câncer, no organismo humano.
Rompeu-se, dessa forma, a harmonia hierárquica
do Sistema, na qual toda individuação
existe, como acontece com as células no corpo
humano, que vivem umas em função das outras,
sem o que, desmorona a unidade orgânica. Num sistema
orgânico e hierárquico, as dimensões
de cada eu são, para cada ser, medidas pelo valor
e pela função ali representada; e cada
individuação deve, para não se
alterar a harmonia da ordem, manter-se sempre nos limites
das dimensões relativas a esse valor e a essa
função". (Pietro Ubaldi, O Sistema,
Cap. III, p. 41) (grifos nossos). |